Manifesto Por uma Arte Revolucionária Independente – André Breton e Leon Trotsky

Publicado originalmente em  http://old.kaosenlared.net/noticia/cultura-manifesto-uma-arte-revolucionaria-independente

Em 1938, na Cidade do México, o revolucionário russo Leon Trotsky e o poeta surrealista francês André Breton redigiram, após longas discussões, o manifesto “Por uma arte revolucionária e independente”. Embora tivessem encontrado-se pela primeira vez poucos meses antes da redação do manifesto, anos antes um forte laço vinha se formando entre estas duas personagens tão importantes quanto diferentes do século XX. Quando ainda membro do Partido Comunista Francês (PCF) , no começo da década de 30, Breton e alguns outros artistas próximos a ele rejeitam a chamada “literatura proletária”, imposta pelo estalinismo, através da Associação Russa de Escritores Proletários (AREP). Neste debate, travado dentro da Associação de Escritores e Artistas Revolucionários (AEAR), utilizam argumentos próximos das teses desenvolvidas por Trotsky na obra Literatura e Revolução, escrita em 1924. Mais tarde, em 1934, assumem abertamente postura contrária à expulsão de Trotsky da França e saúdam “o organizador do Exército Vermelho que permitiu ao proletariado conservar o poder apesar do mundo capitalista coligado contra ele”, no panfleto “Planeta sem passaporte”. No ano de 1935, rompem definitivamente com o PCF, no congresso internacional de escritores em defesa da cultura. Entre 1936 e 1938, a Rússia vê, apavorada, sob as ordens de Stálin, os opositores à burocracia contra-revolucionária que assumira o controle do país serem assassinados ou deportados, naquilo que ficou conhecido como os Processos de Moscou. Quando Trotsky e Breton se encontravam pela primeira vez, em maio de 1938, os últimos sobreviventes da Oposição de Esquerda russa estavam sendo assassinados. O manifesto escrito em 25 de julho faz o chamado à construção da Federação Internacional da Arte Revolucionária e Independente (FIARI), a qual, surgida às vésperas do início da Segunda Guerra Mundial, teve uma breve existência. No entanto, a FIARI, mesmo tendo se dissolvido ainda no início de 1939, e seu manifesto cumpriram o papel ao qual se propunham. Da FIARI, enquanto existiu, aglutinar os artistas que não viam nem no capitalismo, sendo o regime fascista ou democrático, nem no autoritarismo estalinista a solução para os problemas da arte, mas sim na luta pela independência da arte e pela derrocada do capitalismo. O do manifesto, de ser o grito dos artistas das novas gerações que buscam sua liberdade de criação, sua emancipação, rumo à revolução socialista mundial.

    Por uma Arte Revolucionaria Independente

 

André Breton e Leon Trotsky

1) Pode-se pretender sem exagero que nunca a civilização humana esteve ameaçada por tantos perigos quanto hoje. Os vândalos, com o auxílio de seus meios bárbaros, isto é, deveras precários, destruíram a civilização antiga num canto limitado da Europa. Atualmente, é toda a civilização mundial, na unidade de seu destino histórico, que vacila sob a ameaça das forças reacionárias armadas com toda a técnica moderna. Não temos somente em vista a guerra que se aproxima. Mesmo agora, em tempo de paz, a situação da ciência e da arte se tornou absolutamente intolerável.

2) Naquilo que ela conserva de individualidade em sua gênese, naquilo que aciona qualidades subjetivas para extrair um certo fato que leva a um enriquecimento objetivo, uma descoberta filosófica, sociológica, científica ou artística aparece como o fruto de um acasoprecioso, quer dizer, como uma manifestação mais ou menos espontânea da necessidade. Não se poderia desprezar uma tal contribuição, tanto do ponto de vista do conhecimento geral (que tende a que a interpretação do mundo continue), quanto do ponto de vista revolucionário (que, para chegar à transformação do mundo, exige que tenhamos uma idéia exata das leis que regem seu movimento). Mais particularmente, não seria possível desinteressar-se das condições mentais nas quais essa contribuição continua a produzir-se e, para isso, zelar para que seja garantido o respeito às leis específicas a que está sujeita a criação intelectual.

3) Ora, o mundo atual nos obriga a constatar a violação cada vez mais geral dessas leis, violação à qual corresponde necessariamente um aviltamento cada vez mais patente, não somente da obra de arte, mas também da personalidade “artística”. O fascismo hitlerista, depois de ter eliminado da Alemanha todos os artistas que expressaram em alguma medida o amor pela liberdade, fosse ela apenas formal, obrigou aqueles que ainda podiam consentir em manejar uma pena ou um pincel a se tornarem os lacaios do regime e a celebrá-lo de encomenda, nos limites exteriores do pior convencionalismo. Exceto quanto à propaganda, a mesma coisa aconteceu na URSS durante o período de furiosa reação que agora atingiu seu apogeu.

4) É evidente que não nos solidarizamos por um instante sequer, seja qual for seu sucesso atual, com a palavra de ordem: “Nem fascismo nem comunismo”, que corresponde à natureza do filisteu conservador e atemorizado, que se aferra aos vestígios do passado “democrático”. A arte verdadeira, a que não se contenta com variações sobre modelos prontos, mas se esforça por dar uma expressão às necessidades interiores do homem e da humanidade de hoje, tem que ser revolucionária, tem que aspirar a uma reconstrução completa e radical da sociedade, mesmo que fosse apenas para libertar a. criação intelectual das cadeias que a bloqueiam e permitir a toda a humanidade elevar-se a alturas que só os gênios isolados atingiram no passado. Ao mesmo tempo, reconhecemos que só a revolução social pode abrir a via para uma nova cultura. Se, no entanto, rejeitamos qualquer solidariedade com a casta atualmente dirigente na URSS, é precisamente porque no nosso entender ela não representa o comunismo, mas é o seu inimigo mais pérfido e mais perigoso.

5) Sob a influência do regime totalitário da URSS e por intermédio dos organismos ditos “culturais” que ela controla nos outros países, baixou no mundo todo um profundo crepúsculo hostil à emergência de qualquer espécie de valor espiritual. Crepúsculo de abjeção e de sangue no qual, disfarçados de intelectuais e de artistas, chafurdam homens que fizeram do servilismo um trampolim, da apostasia um jogo perverso, do falso testemunho venal um hábito e da apologia do crime um prazer. A arte oficial da época estalinista reflete com uma crueldade sem exemplo na história os esforços irrisórios desses homens para enganar e mascarar seu verdadeiro papel mercenário.

6) A surda reprovação suscitada no mundo artístico por essa negação desavergonhada dos princípios aos quais a arte sempre obedeceu, e que até Estados instituídos sobre a escravidão não tiveram a audácia de contestar tão totalmente, deve dar lugar a uma condenação implacável. A oposição artística é hoje uma das forças que podem com eficácia contribuir para o descrédito e ruína dos regimes que destroem, ao mesmo tempo, o direito da classe explorada de aspirar a um mundo melhor e todo sentimento da grandeza e mesmo da dignidade humana.

7) A revolução comunista não teme a arte. Ela sabe que ao cabo das pesquisas que se podem fazer sobre a formação da vocação artística na sociedade capitalista que desmorona, a determinação dessa vocação não pode ocorrer senão como o resultado de uma colisão entre o homem e um certo número de formas sociais que lhe são adversas. Essa única conjuntura, a não ser pelo grau de consciência que resta adquirir, converte o artista em seu aliado potencial. O mecanismo de sublimação, que intervém em tal caso, e que a psicanálise pôs em evidência, tem por objeto restabelecer o equilíbrio rompido entre o “ego” coerente e os elementos recalcados. Esse restabelecimento se opera em proveito do ”ideal do ego” que ergue contra a realidade presente, insuportável, os poderes do mundo interior, do “id”,comuns a todos os homens e constantemente em via de desenvolvimento no futuro. A necessidade de emancipação do espírito só tem que seguir seu curso natural para ser levada a fundir-se e a revigorar-se nessa necessidade primordial: a necessidade de emancipação do homem.

8) Segue-se que a arte não pode consentir sem degradação em curvar-se a qualquer diretiva estrangeira e a vir docilmente preencher as funções que alguns julgam poder atribuir-lhe, para fins pragmáticos, extremamente estreitos. Melhor será confiar no dom de prefiguração que é o apanágio de todo artista autêntico, que implica um começo de resolução (virtual) das contradições mais graves de sua época e orienta o pensamento de seus contemporâneos para a urgência do estabelecimento de uma nova ordem.

9) A idéia que o jovem Marx tinha do papel do escritor exige, em nossos dias, uma retomada vigorosa. É claro que essa idéia deve abranger também, no plano artístico e científico, as diversas categorias de produtores e pesquisadores. “O escritor, diz ele, deve naturalmente ganhar dinheiro para poder viver e escrever, mas não deve em nenhum caso viver e escrever para ganhar dinheiro… O escritor não considera de forma alguma seus trabalhos como um meio. Eles são objetivos em si, são tão pouco um meio para si mesmo e para os outros que sacrifica, se necessário, sua própria existência à existência de seus trabalhos… A primeira condição da liberdade de imprensa consiste em não ser um ofício. Mais que nunca é oportuno agora brandir essa declaração contra aqueles que pretendem sujeitar a atividade intelectual a fins exteriores a si mesma e, desprezando todas as determinações históricas que lhe são próprias, dirigir, em função de pretensas razões de Estado, os temas da arte. A livre escolha desses temas e a não-restrição absoluta no que se refere ao campo de sua exploração constituem para o artista um bem que ele tem o direito de reivindicar como inalienável. Em matéria de criação artística, importa essencialmente que a imaginação escape a qualquer coação, não se deixe sob nenhum pretexto impor qualquer figurino. Àqueles que nos pressionarem, hoje ou amanhã, para consentir que a arte seja submetida a uma disciplina que consideramos radicalmente incompatível com seus meios, opomos uma recusa inapelável e nossa vontade deliberada de nos apegarmos à fórmula:toda licença em arte.

10) Reconhecemos, é claro, ao Estado revolucionário o direito de defender-se contra a reação burguesa agressiva, mesmo quando se cobre com a bandeira da ciência ou da arte. Mas entre essas medidas impostas e temporárias de autodefesa revolucionária e a pretensão de exercer um comando sobre a criação intelectual da sociedade, há um abismo. Se, para o desenvolvimento das forças produtivas materiais, cabe à revolução erigir um regimesocialista de plano centralizado, para a criação intelectual ela deve, já desde o começo, estabelecer e assegurar um regime anarquista de liberdade individual. Nenhuma autoridade, nenhuma coação, nem o menor traço de comando! As diversas associações de cientistas e os grupos coletivos de artistas que trabalharão para resolver tarefas nunca antes tão grandiosas unicamente podem surgir e desenvolver um trabalho fecundo na base de uma livre amizade criadora, sem a menor coação externa.

11) Do que ficou dito decorre claramente que ao defender a liberdade de criação, não pretendemos absolutamente justificar o indiferentismo político e longe está de nosso pensamento querer ressuscitar uma arte dita “pura” que de ordinário serve aos objetivos mais do que impuros da reação. Não, nós temos um conceito muito elevado da função da arte para negar sua influência sobre o destino da sociedade. Consideramos que a tarefa suprema da arte em nossa época é participar consciente e ativamente da preparação da revolução. No entanto, o artista só pode servir à luta emancipadora quando está compenetrado subjetivamente de seu conteúdo social e individual, quando faz passar por seus nervos o sentido e o drama dessa luta e quando procura livremente dar uma encarnação artística a seu mundo interior.

12) Na época atual, caracterizada pela agonia do capitalismo, tanto democrático quanto fascista, o artista, sem ter sequer necessidade de dar a sua dissidência social uma forma manifesta, vê-se ameaçado da privação do direito de viver e de continuar sua obra pelo bloqueio de todos os seus meios de difusão. É natural que se volte então para as organizações estalinistas que lhe oferecem a possibilidade de escapar a seu isolamento. Mas sua renúncia a tudo que pode constituir sua mensagem própria e as complacência degradantes que essas organizações exigem dele em troca de certas possibilidades materiais lhe proíbem manter-se nelas, por menos que a desmoralização seja impotente para vencer seu caráter. É necessário, desde este instante, que ele compreenda que seu lugar está além, não entre aqueles que traem a causa da revolução e ao mesmo tempo, necessariamente, a causa do homem, mas entre aqueles que dão provas de sua fidelidade inabalável aos princípios dessa revolução, entre aqueles que, por isso, permanecem como os únicos qualificados para ajudá-Ia a realizar-se e para assegurar por ela a livre expressão ulterior de todas as manifestações do gênio humano.

13) O objetivo do presente apelo é encontrar um terreno para reunir todos os defensores revolucionários da arte, para servir a revolução pelos métodos da arte e defender a própria liberdade da arte contra os usurpadores da revolução. Estamos profundamente convencidos de que o encontro nesse terreno é possível para os representantes de tendências estéticas, filosóficas e políticas razoavelmente divergentes. Os marxistas podem caminhar aqui de mãos dadas com os anarquistas, com a condição que uns e outros rompam implacavelmente com o espírito policial reacionário, quer seja representado por Josef Stálin ou por seu vassalo Garcia Oliver.

14) Milhares e milhares de pensadores e de artistas isolados, cuja voz é coberta pelo tumulto odioso dos falsificadores arregimentados, estão atualmente dispersos no mundo. Numerosas pequenas revistas locais tentam agrupar a sua volta forças jovens, que procuram vias novas e não subvenções. Toda tendência progressiva na arte é difamada pelo fascismo como uma degenerescência. Toda criação livre é declarada fascista pelos estalinistas. A arte revolucionária independente deve unir-se para a luta contra as perseguições reacionárias e proclamar bem alto seu direito à existência. Uma tal união é o objetivo da Federação Internacional da Arte Revolucionária Independente (FIARI) que julgamos necessário criar.

15) Não temos absolutamente a intenção de impor cada uma das idéias contidas neste apelo, que nós mesmos consideramos apenas um primeiro passo na nova via. A todos os representantes da arte, a todos seus amigos e defensores que não podem deixar de compreender a necessidade do presente apelo, pedimos que ergam a voz imediatamente. Endereçamos o mesmo apelo a todas as publicações independentes de esquerda que estão prontas a tomar parte na criação da Federação Internacional e no exame de suas tarefas e métodos de ação.

16) Quando um primeiro contato internacional tiver sido estabelecido pela imprensa e pela correspondência, procederemos à organização de modestos congressos locais e nacionais. Na etapa seguinte deverá reunir-se um congresso mundial que consagrará oficialmente a fundação da Federação Internacional.

O que queremos:

a independência da arte – para a revolução

a revolução – para a liberação definitiva da arte.

 

 

Cidade do México, 25 de julho de 1938

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Homenagem aos 15 anos sem Chico Science – Documentário Viva! Chico Vive!

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No aniversário de 15 anos do falecimento de Chico Science, o Bebendo Música traz o documentário “VIVA! CHICO VIVE!” sobre a importância de Chico na cena musical de Pernambuco e de onde surgiu o seu som.
http://www.youtube.com/watch?v=WJq_G65R7dM&feature=youtube_gdata_player
http://www.youtube.com/watch?v=xuNCXPQ_YHw&feature=youtube_gdata_player
http://www.youtube.com/watch?v=TFXJjwmS_bg&feature=youtube_gdata_player

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Sobre o conceito de cultura – Idelber Avelar

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“Cultura” é daquelas palavras escorregadias, aparentemente simples, que com frequência são usadas com sentidos não só diferentes, mas antagônicos. Mais produtivo que estabelecer qual é a definição “correta” de cultura seria observar quais os sentidos adquiridos pela palavra ao longo do tempo e o que eles nos dizem sobre os seus referentes no mundo real. É o que tento fazer na coluna deste mês.

Palavras-Chave, do marxista britânico Raymond Williams, obra publicada no Brasil pela Boitempo, é um ótimo guia do assunto. “Cultura” vem do verbo latino colere, que combinava vários sentidos: cultivar, habitar, cultuar, cuidar, tratar bem, prosperar. Do sentido de habitar derivou colonus. Têm, portanto, origens comuns as ideias de colonização, culto e cultura. Já em Cícero (106 a.C. – 43 a.C.) aparece o sentido de cultura como “cultivo da alma”, mas é mesmo a partir do Renascimento que se consolida a analogia entre o cultivo natural e um desenvolvimento humano. É nesse sentido que Thomas More, Francis Bacon ou Thomas Hobbes, nos séculos XVI ou XVII, falam de “cultura da mente” ou “cultura do entendimento”. É uma metáfora derivada da analogia com o sentido material, agrícola do termo.

A naturalização dessa metáfora fez com que se cristalizasse o sentido de cultivo humano, e nos séculos XVIII e XIX o termo “cultura” começa a aparecer como autossuficiente, dissociado do objeto desse cultivo. Até o século XVIII, tratava-se sempre da cultura de alguma coisa, fossem plantações, animais ou mentes. A partir daí, segundo Willliams, “o processo geral de desenvolvimento intelectual, espiritual e estético foi aplicado e, na prática, transferido para as obras e práticas que o representam e sustentam”. Em outras palavras, firma-se ali o sentido de “cultura” como um bem que alguns possuem e outros não. Esse sentido permanece conosco, quando dizemos que alguém é “culto” ou “tem cultura”. É uma acepção excludente da palavra, que com frequência ganha contornos, inclusive, aristocráticos.

Com a antropologia, no final do século XIX e, especialmente, no século XX, volta-se às raízes materiais do conceito de cultura, mas agora com ênfase na sua universalidade humana. “Cultura” passa a ser entendida como o conjunto de valores, crenças, costumes, artefatos e comportamentos com os quais os seres humanos interpretam, participam e transformam o mundo em que vivem. Nenhuma comunidade humana está excluída dela, embora, também com a antropologia, solidifique-se o processo que faz de “cultura” um adjetivo passível de ser usado no plural. As culturas humanas são múltiplas, diferentes, irredutíveis entre si e, acima de tudo, não são hierarquizáveis. Na acepção antropológica do termo, não há sentido em se falar de mais ou menos cultura, ou de culturas superiores ou inferiores a outras. Há uma veia radicalmente relativista na concepção antropológica de cultura, que se realiza em sua plenitude na obra de Franz Boas, mestre de Gilberto Freyre.

Nos debates sobre política cultural, é sempre instrutivo observar com qual sentido cada interlocutor usa o vocábulo “cultura”. Do ponto de vista antropológico, não teria sentido dizer, por exemplo, “levar culturapara o povo”, posto que qualquer povo está inserido em sua cultura—ele não seria povo sem ela. Mas é frequente que assim se designe a função dos Ministérios ou das Secretarias da cultura. Tampouco teria sentido, exceto na acepção excludente e aristocratizante apontada acima, falar de “produtores de cultura” como uma classe aparte, diferente daqueles que seriam seus meros consumidores. Mas não é incomum, em discussões sobre política cultural, a desqualificação de interlocutores como sujeitos que supostamente estariam “fora” da cultura ou que não seriam “da área” da cultura. Ora, não há seres humanos vivendo em sociedade que estejam fora da cultura.

O uso excludente do termo se reproduz quando se igualam os “produtores de cultura” à chamada “classe artística”. Essa é a sinédoque—redução do todo a uma de suas partes—que me parece mais daninha nas discussões sobre política cultural. A cultura é a totalidade das formas em que um povo produz e reproduz suas relações com os sentidos do mundo. Reduzi-la às indústrias cinematográfica, teatral e fonográfica é reeditar a exclusão segundo a qual alguns produzem cultura e outros a consomem. Implicitamente, é ignorar e desprezar o fazer cotidiano de milhões de brasileiros. Não há por que um pequeno conjunto de profissionais das citadas indústrias, concentrados principalmente em duas cidades brasileiras, se apresentarem como os representantes da área de responsabilidade do Ministério da Cultura. Essa redução atende a interesses nada republicanos e é incompatível com uma concepção democrática de cultura.

Um Estado que tivesse democratizado completamente sua concepção de cultura seria então, no limite, um Estado em que cineastas, atores e compositores não fossem percebidos como sujeitos da culturamais que pedreiros, domésticas ou camponeses. Seria um Estado em que a conversa jamais incluísse expressões como “pessoas que não são da área da cultura”. Seria um Estado onde a ideia de “levarcultura ao povo” não fizesse sentido. Seria um Estado que soubesse encontrar, valorizar e construir pontes entre os muitos fazeres culturais que já estão acontecendo em seu território. Seria um Estado onde fosse impensável que um agente do poder público se apresentasse como representante dos “criadores de cultura”, a não ser que com essa expressão o agente se referisse à totalidade dos que vivem sob a égide desse Estado. Seria um Estado que genuinamente captasse a cultura como a totalidade dos sentidos do fazer humano.

Mais que nomes, cargos, tendências, correntes e conchavos, os acalorados debates em torno do Ministério da Cultura que têm tido lugar no Brasil nos últimos meses são uma oportunidade para que se repense essa questão de fundo: qual é a compreensão de cultura que queremos, quais são as visões e conceitos de cultura que fazem justiça à nossa experiência como povo.

Este artigo é parte integrante da edição 99 da Revista Fórum.

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A música vivida no palco.

Um show é muito mais que os instrumentistas produzindo música debaixo de holofotes para um grupo de pessoas. A música é viva e essa vitalidade deve ser representada nas reações do intérprete de modo a viver os sentimentos expressos na canção.

Vários ícones se firmaram por sua interpretação de palco (e fora dele). A cena de Ozzi arrancando cabeça de morcego com a boca é lendária e combinava com a temática da banda, o Black Sabath. Um pouco à frente na história, David Bowie deu início à trangenia  na música com o personagem Ziggy Stardust (ver texto anterior no blog:  http://bebendomusica.wordpress.com/2010/08/05/seres-androgenos-na-musica/ ) , uma transfiguração em um personagem de uma história com a consequente incorporação dos elementos na atuação de palco.

No Brasil, a presença de palco fica mais centrada na Mpb. Elis Regina era a diva dos pés descalços para sentir a vibração da música e seu batimento. Ney Matogrosso torna-se um camaleão no palco, vivendo o ritmo e sentindo o que canta.

Da nova geração, Pernambuco traz o sentimento para o palco com duas explosões de gestos e expressões, duas figuras marcantes que representam o fogo do novo. Lirinha (Arcoverde), ex-capitão da banda Cordel do Fogo Encantado, e Karina Buhr (Recife), cantora solo que possui em sua banda nada menos que dois dos maiores guitarristas do Brasil, Edgar Scandurra (Ira) e Catatau (Cidadão Instigado).

 

Ambos tem graça, força e rebeldia. Vivem o palco como se fosse o último show de suas vidas, fazendo belíssimos espetáculos. São a linguagem musical muito além da linguagem musical, resultando na construção da música em todos os sentidos.

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Um não direito para uma cultura realmente livre!

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Quando se estuda a economia da cultura brasileira e principalmente a legislação sobre os instrumentos culturais e a proteção à propriedade criativa, evidencia-se a inadequação do conceito formal de direito em face da concreta demanda de artistas e população em geral “consumidora” de cultura.

Inicialmente temos que ter claro em nossas mentes que vivemos em uma sociedade 2.0. Governos caem, celebridades nascem e, principalmente, a cultura se espalha na mesma velocidade das conexões, trazendo novos paradigmas para a positivação das normas reguladoras.

O direito, em sua concepção mais clássica, surge como um instrumento protetivo de uma sociedade, ou pelo menos de sua maior parcela. O mesmo possui uma origem pelega, garantista em um aspecto antagônico à perspectiva penalista. É um garantidor do status social e mantenedora da sociedade de classes em que vivemos.

Na cultura, não é diferente. Toda legislação se baseia na posse individual, elemento único na gestão da propriedade imaterial, uma visão que encastela artistas escolhidos pela mídia, jogando aos leões a produção amadora e o novo.

Mas em nossa sociedade 2.0, artistas gritam “MINHA MÚSICA É LIVRE! PIRATEIEM!” trazendo um perspectiva da gestão coletiva e consequentemente de inaplicabilidade da legislação pátria, criando um vacatio legis proporcional à lacuna conceitual.

Formula-se então a necessidade de um não direito, que inverta a necessidade de ser garantidor pela incorporação da acepção de instrumento para fomentar a sociedade cultural.

A instrumentalizacão emancipatória do direito é um não direito pois se contrapõe ao direito da cultura protetivo dos grupos hegemônicos, derrubando o próprio conceito de direito. E esse conflito entre direito de cultura e o não direito de cultura tem um nome antigo e bastante conhecido, LUTA DE CLASSES!

Defender uma cultura livre é portanto lutar pela quebra dos conceitos arcaicos de direito cultural e construção de uma instrumentalização formentiva da doutrina legal, para que, somente assim, a cultura seja realmente livre.

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Uma nova fase para o Bebendo Música

Como tornou-se claro nas últimas postagens, principalmente observando a distância entre as mesmas, o autor único deste blog não conseguiu dar conta de uma atualização ritmada. Fazer blog é difícil, tem que se dedicar e isso não foi possível até então.
Entretanto essa não é uma carta de despedida, pelo contrário. Apresento agora uma nova proposta: transformar o BM em um blog colaborativo com correspondentes selecionados em todo o Brasil que possibilitem análises distintas dos mais diversos elementos da cultura musical, mas centrado nos lançamentos fonográficos, nos shows, e na análise de ritmos.
Chamarei amigos que vão comprar/baixar um cd e dizer sua impressão, falar de uma apresentação que presenciou…. Essa é a idéia. Farei uma reestruturação no visual… Enfim… A virada do ano será com uma nova fase. Vamos com Tudo!

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Qual o melhor guitarrista da História?

Acordei hoje com este questionamento… Após escutar respostas objetivas se referindo a Eric Clapton e Jimmy Page, comecei a ponderar: Melhor em quê? De fato fizeram referência a dois mitos da guitarra, pessoas que são referências pra várias gerações, mas o quê torna uma pessoa o melhor guitarrista da História?

O metal tem uma roupagem clássica, dialoga com elementos de música clássica e esta influência se demonstra na grande utilização das escalas na construção dos solos e riffs. Falamos de agilidade e virtuosismo quê demonstram a qualidade do guitarrista. Neste sentido, do meu pouco conhecimento na área, lembro do Rafael Bithencourt, guitarrista do Angra que também tem a formação de Maestro.

Mas não basta ter velocidade. A guitarra é um instrumento elétrico e saber utilizar os acessórios relacionados a ela é fundamental. E ninguém sabe utilizar, pedaleiras, sintetizadores, amplificadores e ua-ua’s como o guitarrista do U2, The Edge. Construir novos sons constrói um grande guitarrista.

Mas tem gente que transcende a guitarra e começa a recria-la com a inocência de uma criança com um brinquedo nova. Daí três imagens não saem da minha memória. Certa vez, Eric Clapton dando uma entrevista deitado em um sofá dedilhava e brincava com sua guitarra. Seria uma imagem normal se o mesmo não usasse como slide um copo de mostarda todo torto… Ao mesmo tempo me recordo de uma imagem de um Show do Jethro Tull onde Ian Anderson usa um Arco de Violino para tocar e fazer som na guitarra. O terceiro episódio é um trecho do filme “A todo volume”, documentário sobre a guitarra onde Jack White, do White stripes e do Raconteurs constrói uma guitarra de uma corda só usando um pedaço de madeira, uns pregos, uma garrafa de refrigerante vazia. Reconstruir a técnica de se tocar é um ato típico dos maiores guitarrista da história.

E ainda tem as lendas. Guitarrista que se destacaram pela simplicidade e adequação do que tocam às melodias… Mark Knopfler, Jimmy Page, Pete Townshend…

É, não dá pra responder quem é melhor…

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“Com tudo aquilo que fomos, e tudo aquilo que somos nós”*

Após uma passagem por uma roda de samba e uma festa com diversos ritmos, encontro ao lado da minha casa um singelo grupo de pessoas tocando, comovidos, antigos clássicos. São Músicas consagradas pela seresta balizadora das grandes rádios que fomentaram a cultura nacional em décadas a muito passadas.

Da viola emergiam o sentimento de vários compositores, mas um se destacava: Orlando Silva!

Podem existir diversos contemporâneos que desconheço. Verdadeiros gênios da música que se perderam no tempo do Rádio. Entretanto, deve-se respeitar com toda a pompa o cantor das multidões, Orlando Silva, o menestrel romântico de toda uma geração. De suas músicas, brota o sentimento do querer, da dispensa, da possibilidade.

Tratamos de um cantor que soube interpretar os sentimentos, e que fez escola. A já falada capacidade de musicar histórias do Brasileiro nasce e se reproduz claramente nas radialização das novelas dos anos 40/50, um tempo de exploração do sentimento e aprofundamento da música como um veículo amplificador de todo o sentimento que a sociedade opressora escondia.

Ninguém me convence que Adão não sofreu por Eva, mostrando que sofrer por sentimentos faz parte do ser humano e acompanhou toda a sua evolução. Neste momento, Orlando Silva passou para a música o que sentia e virou um dos maiores menestréis da música popular.

Ainda hoje se observa os frutos desta musicalização dos sentimentos. Tanto as duplas sertanejas e sua exteriorização da “cornice” quanto os pagodes melosos e o Funk melody, possuem a mesma missão: retratar o sentimento na música se identificando com o ouvinte. Mas isso tem um Pai – Orlando Silva

*Tracho de O Teatro Mágico – O Mérito e o Monstro, de Fernando Anitelli

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A atualidade do “Manifesto Punk: Fora com o mofo da MPB! Fim da idéia de falsa liberdade!” de Clemente Tadeu Nascimento

As periferias brasileiras sempre foram órfãos de possibilidades culturais e repercussões da criatividade existente. Nos anos 80, em uma economia em frangalhos e com a antecipação da entrada do jovem no mercado de trabalho já com necessidade de colaborar incisivamente com o sustento de sua família, vimos uma juventude perdendo sem poder expressar sua jovialidade e sua revolta com o sistema capitalista que regia suas vidas.

Esta política de exclusão da juventude dos aparelhos culturais, misturada com as experiências da juventude inglesa, cansada de adoração à monarquia, que se debruçou ao som de protesto do PUNK, formou um grito popular no fabril interior de São Paulo. O PUNK paulistano começava a tomar forma e a criticar o status quo de uma cultura massificada por Chacrinha e congêneres.

O Jovem que acordava as 5 da manhã pra trabalhar estava longe das noitadas clubers da época. Usavam suas roupas de trabalho, macacão, botas com bico de aço pra proteger os dedos, roupas de couro pra proteger do frio. Vestiam e principalmente ouviam o que era acessível, não pelo veículo, mas pelo assunto. O momento social do público misturado ao sentimento de revolta pós ditadura construiu o PUNK em conflito aos medalhões do mercado e suas regalias.

Hoje não é diferente. A indústria da música se volta para alguns que mantém o lucro dos grandes veículos midiáticos, enquanto a cultura popular segue com o descaso…

Áquela época, em resposta a um jornalão paulista que criticara o PUNK, foi escrito o manifesto que trago abaixo, que continua, extremamente atual, infelizmente…

“Nós, os punks, estamos movimentando a periferia – que foi traída e esquecida pelo estrelismo dos astros da MPB. Movimentando a periferia, mas não como Sandra de Sá, que agora faz sucesso com uma canção racista e com uma outra que apenas convida o pessoal para dançar: ou, na verdade, o convida para a alienação. Nos nossos shows de punk rock, todos dançam; dançam a dança da guerra, um hino de ódio e de revolta da classe menos privilegiada. Já Guilherme Arantes diz que é feliz, mesmo havendo uma crise lá fora, porque não foi ele quem a fez; nós também não fizemos esta crise, mas somos suas principais vítimas, suas vítimas constantes – e ele não. Nossos astros da MPB estão cada vez mais velhos e cansados, e os novos astros que surgem apenas repetem tudo que já foi feito, tornando a música popular uma música massificante e chata. Mesmo assim, eles ainda conseguem fazer o povo chorar. Não sei como, cantando a miséria do jeito que eles a veem, do alto, mas que não sentem na carne como nós. E também choram de alegria quando contam o dinheiro que ganham. Nós, os Punks, somos uma nova face da Música Popular Brasileira, com nossa música não damos a ninguém uma idéia de falsa liberdade. Relatamos a verdade sem disfarces, não queremos enganar ninguém. Procuramos algo que a MPB já não tem mais e que ficou perdido nos antigos festivais da Record e que nunca mais poderá ser revivido por nenhuma produção da rede globo de televisão. Nós estamos aqui para revolucionar a Música Popular Brasileira, para dizer a verdade sem disfarces (e não tornar bela a imunda realidade): Para pintar de negro a Asa Branca, atrasar o trem das onze, pisar sobre as flores de Geraldo Vandré e fazer da Amélia uma mulher qualquer.”

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“Pessoal da MTV, vergonha na cara!!!”

É sempre estranho começar um texto com uma frase do Caetano Veloso, até porque nos últimos tempos o mesmo dispensou sua capacidade criativa para tornar-se o porta-voz da elite reacionária e preconceituosa mas que se acha moderninha, principalmente quando sai da área da cultura. Mas esta pérola, pronunciada ao palco do prêmio de música da MTV quando a mesma não conseguia acertar um problema de microfonia e captação dos instrumentos, torna-se cada vez mais necessária pra uma televisão de música que não mostra mais música.

A proposta é fantástica. 24 horas dedicada a música com clip, show e entrevista. Um espaço para divulgar novas bandas, cativar instrumentistas e nacionalizar as produções em um país continental. Entretanto ficou só na proposta.

Ainda nos anos 90, poucos anos após sua montagem, as gravadoras tomaram conta e passaram a definir quem virava ou não atração. Tom Capone, ex-guitarrista de bandas de brasília como Peter Perfeito e Detrito Federal, que ficou mais conhecido como produtor de Raimundos, Legião Urbana e Djangos, era figurinha constante na emissora e até o filho do dono de uma gravadora, Rafael Marques da extinta Baba Cósmica, virou um apresentador de um programa trash de perguntas, o Quiz MTV,  junto da ex-playboy e eterna pseudo-apresentadora Adriane Galisteu.

Daí só piorou. Começaram as novelinhas adolescentes que tomaram conta de toda a programação. ‘Na Real’, ‘Grávida aos 16′, ‘Família Osbourne’, entre outras séries que mostravam o modo de vida americano e moldavam a o jovem que assistia a MTV com valores bem distantes da cultura brasileira. Completavam a programação os programetes de carros, de piadas e desenhos animados. E a música?

Não podemos dizer que não tinha música. Todo dia, desde que foi criada a emissora, são “escolhidos” os clipes da semana. Mas será que o público realmente escolhe? Acho muita coincidência que durante uma semana TODAS os grupos sejam de apenas 2 gravadoras e representem apenas restritos movimentos musicais como o Hip Hop americano e os fedelhos de roupas coloridas e descobrindo a sexualidade de bandas como Fresno, NXZero e Restart .

Lógico que não podemos desconsiderar tudo que é produzido por este canal. Ainda existem faixas na programação, bem pequenas, que mostram bandas novas e de selos independentes (é até o velho China, figura folclórica da música independente que apresenta) ou atrações ao vivo como os projetos “Acústico MTV”. Alguns entraram para a história como o belo Acústico Titãs, o póstumo acústico Legião Urbana, e os projetos “Bailão do Ruivão” do Nando Reis e Balada MTV com Raimundos.

Mas convenhamos que é muito pouco para uma emissora auto-intitulada como TV MÚSICA. Como diria Caê, ”Pessoal da MTV, vergonha na cara!!!”

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